Caminhada à Santiago – Terceiro Dia

Los Caminos no tienen final. Nuestros passos si…

Hoje afigurava-se um dia tenebroso. 40 km até Sobrado dos Monxes.

Estranhamos haver alunos a queixarem-se que determinados professores à noite faziam mais barulho a dormir do que eles acordados, pois para nós… já é tradição, para eles parece que não. Atendendo ao dia que se avizinhava, alertamos para a necessidade de relativizar as dores, mas em simultâneo terem a consciência das suas limitações. A distância da etapa associada aos desníveis aconselhava prudência, paciência, resiliência e outras coisas terminadas em “ência” que não me lembro agora (22h30) porque ainda estou anestesiado dos km realizados. O pensamento do dia, lido por um aniversariante começava assim: “Serendipismo”, palavra da cultura oriental que passou para a psicologia e que significa ter o dom ou capacidade de encontrar respostas, coisas valiosas e agradáveis, sem as procurar diretamente. E como eles (e nós) hoje iam precisar disso enquanto palmilhavam quatro dezenas de km. O Caminho passava por trechos lindíssimos, e logo que abandonamos a estrada nacional e entramos num bosque deparamos com um eremitério do século XIV, relativamente bem conservado, com um cruzeiro e fonte renascentista, próximos. Alguns quilómetros depois, um sinal indicava bar a 150 metros, afastado do Caminho. Como fechava o grupo juntamente com dois colegas docentes, e ambos repetentes nos muitos Caminhos realizados, fomos provar uma garrafinha de branco para “hidratar”. Aproveitamos e brindamos a um colega que já não se encontra entre nós mas a quem O Caminho dizia muito – Avé Caminheiro Seixas.

Seguimos viagem e numa subidinha ligeira, um som com música alusiva ao Comandante Che Guevara levou-nos a entrar na oficina de um artesão que trabalha em diferentes tipos de pedra e onde adquiri uma com a frase que intitula este artigo. Na parte posterior da pedra um escrito em latim, “Ego non fumun vendidi”  informava que não me tinha vendido uma qualquer quinquilharia.

Pelas 13h, com quase metade do percurso realizado atacamos para almoçar pouco depois de Miraz, e como apetite é coisa que não falta nestas ocasiões, fizemo-lo convenientemente, tendo eu percebido que tinha adquirido, e sem pagar, duas bolhas, uma em cada pé. Feito o respetivo tratamento com agulha e linhas, fiquei apto a seguir viagem mancando com estilo, de forma alternada e ritmada. Depois, bem…depois, a subida que nos esperava estava no programa, mas nós não tínhamos estudado a matéria, e pior que a subida foi a quantidade de quilómetros sem um café onde anestesiar dores e sede. Quando enfim, ele surgiu, percebemos que o nosso alvarinho é um espetáculo, mas o galego, fresco e com quase 30 km nas pernas…até parece soberbo.

Chegados a Sobrado dos Monxes, já com a noite a dar sinais, questionados os alunos, sobre como caraterizariam o dia que tinham acabado de passar, a resposta foi: “Trabalho em equipa“. Percebemos pelo andar “esquisito” de muitos, que hoje foi dia de “comprar” e comparar bolhas e músculos doridos, mas que os grupos formados após o almoço, quando tudo começou a custar mais, se mantiveram unidos até final, com os menos sofredores a sofrerem as dores dos outros por forma a terminarem juntos. Um dia de enorme solidariedade e aprendizagem.

Após o jantar cantaram-se os parabéns ao aniversariante com bolo adequado à efeméride e estamos certos que ele nunca esquecerá onde e com quem comemorou a entrada na idade adulta. Não são todos que escolhem comemorar aniversário caminhando…40 km.

À noite começou a chover, o que me deixou imensamente feliz pois amanhã todos vão poder estrear os ponchos que ainda ninguém viu nem experimentou em dois dias de sol radioso.