Caminhada à Santiago – Última Etapa

Caminantes (de vila verde) no hay (más) caminho

Hoje o dia começou mais cedo. A mudança da hora roubou-nos uma de sono, para quem conseguiu dormir, tal a excitação noturna de terem encontrado (e ajudado) um peregrino histórico, e a ideia de chegar a Santiago. Reunião madrugadora, mesmo (7h30, que ontem, por cá eram 6h30, e em Portugal, 5h30) e o chefe da comitiva a pedir aos peregrinos que neste último dia refletissem sobre as setas da sua vida. Aqui, nós pedimos (exigimos) que sigam as setas amarelas, mas, na vida de cada um, quais as setas que seguem? As que pretendem, ou escolhidas por outros? Após este pedido de reflexão individual, ouviram um poema de António Machado, musicado e cantado por Joan Manuel Serrate e Joaquin Sabina cujo refrão “Caminante no hay caminho, se hace camino al andar” os deixou com lágrima no canto do olho. Leu-se o pensamento do dia, que nos dizia ser a vida a nossa mestra, e o nosso livro de aprendizagem, devemos por isso, aprender a lê-la, desenvolvendo o que nos faz crescer e corrigindo e evitando o que nos traz conflito e isolamento.

Saídos do Albergue, alunos com pequeno almoço tomado seguiram Caminho, enquanto professores mais calmos se dirigiram a um café de Pedrouzo, sabendo por experiência própria que no último dia, todos entramos juntos em Santiago e atendendo a algumas donzelas que já arrastavam as pernas, ou coxeavam, devido a bolhas recém-tratadas, as encontraríamos antes do almoço previsto para Lavacolla, onde os peregrinos tinham por costume lavar o corpo todo antes de chegar a Santiago. Hoje, “lavaram” ou melhor, reconfortaram apenas o estômago. Almoço terminado e seguimos para o Monte do Gozo, que dá enorme gozo por termos sido obrigados a fazer a ingremes subidas, e sabermos que a partir dali seria a descer.

Feito o reagrupamento perto de Santiago, como é hábito, coxos e “paralíticos” marcaram o ritmo da nossa entrada na cidade, ao som ritmado do bater dos cajados, devidamente orientados por um professor de artes, e a cantar o Hino Nacional. Antes de entrar na praça do Obradoiro, num túnel onde artistas costumam cantar pedindo moedas, paramos “o pelotão” na escadaria e a aluna que já tinha cantado no Mosteiro de Santa Maria de Sobrado dos Monxes, decidiu, a pedido do responsável máximo, (en)cantar e surpreender novamente, interpretando o “Avé Maria”. Podemos dizer que, literalmente, durante alguns minutos paramos o trânsito naquela zona de Santiago pois todos os peregrinos, ou simples turistas, paravam para filmar ou fotografar aquele que pode ser considerado um dos momentos mais marcantes deste nosso Caminho, senão mesmo, o mais marcante. Por isso, e em nome da organização, obrigado Cristiana Arantes. Depois, a tradicional chegada à praça principal com chuva copiosa a não conseguir superar os rios de lágrimas que todos os participantes partilhavam quando do tradicional abraço individual ou conjunto. Surpresas agradáveis, na chegada, o diretor da escola, e alguns familiares de alunos que decidiam vir confirmar se estavam(os) todos “vivos”.

Nestes dez Caminhos organizados, este abraço que todos sentimos necessidade de dar, faz-nos relembrar as centenas que já abraçamos e que nestes alturas nos lêem e incentivam a continuar, afirmando que foi a atividade mais marcante por que passaram do ensino secundário. Tirada a foto de grupo, dirigimo-nos à Catedral para o tradicional abraço ao Santo, de onde seguimos para o Albergue onde um banho retemperador nos preparou devidamente para o merecido jantar. Amanhã, não há mais caminho e eles já se queixam disso.